terça-feira, 3 de abril de 2012

Expurgar

E lá vou eu de novo. Mais uma vez, correndo atrás do que ainda posso chamar de sentimento. Indo atrás de mim mesma, do meu espelho, do meu conforto.

Vou pra preencher alguns espaços vazios e machucados. Vou pra rir verdadeiramente. Ouvir e ser ouvida com o coração. Vou pra ficar em silêncio. Daqueles que só são confortáveis ao lado daqueles que não tememos.

Vou porque preciso dos seus braços, dos seus olhos, do seu sorriso. Vou pra você me chacoalhar e dizer seca e friamente o quanto eu ainda não aprendi nada.

Vou pra ouvir verdades sobre mim mesma. E chorar. E soluçar. E cantar.

Vou porque é só aí, deitada em seu silêncio que eu consigo entender e agradecer um pouco o fato de ter nascido e feito as escolhas que fiz. Foi pra chegar até aí, pra ouvir o pulsar de algo que é eterno em mim.

Vou porque eu preciso, mais uma vez, lembrar que sou capaz de sentir.
Vou porque você é metade. E eu preciso de algo que lembre o que eu sou. Uma vez que estou inexistente. Uma vez que olho no espelho e não enxergo nada.

Preciso enxergar você pra poder me enxergar novamente.

domingo, 18 de março de 2012

Sobre o Recomeço

Admitamos o seguinte: são os recomeços que movem nossa vida, nossa humanidade, nosso planeta. Se nada tivesse fim, pra quê viver? Se tudo fosse eterno e não se renovasse, ainda estaríamos tentando inventar a roda.

Mas poderia ser pior. Não há muito o que reclamar afinal.

Moro numa cidade onde existem inúmeras atrações. Recomeços implicam em algumas sessões de cinema no meio da tarde, sozinha, comendo os pãezinhos de queijo do CineSesc da Augusta. Faz parte do recomeço olhar inúmeras vezes pro telefone e não saber pra quem ligar. Faz parte do recomeço tomar um Advil antes de dormir, com a esperança de que vai tirar essa dor do vazio. Recomeçar significa ter paciência e esperar que uma nova rotina se fixe a ponto de não sentir mais saudade da antiga.
São sempre nos recomeços que conheço pessoas interessantes, que ouço músicas boas e leio incessantemente. São nesses espaços entre um ciclo que se fecha e outro que inicia que eu alimento minha alma de cultura. Porque é só estando sozinha que eu consigo isso. Porque eu continuo com a idéia fixa de que eu só existo quando ninguém me olha.

Agora eu não tenho mais medo de recomeçar. Tenho preguiça, é fato. Mas não temo. Recomeçarei quantas vezes forem necessárias. Fecharei quantos ciclos achar que devo fechar. E abrirei outros tantos, na medida das minhas necessidades. Culturais, espirituais, intelectuais, sexuais e emocionais.

E terei sempre aqueles fiéis ao meu lado. Que por mais de uma década me dão o braço pra me levantar, o ombro pra eu chorar e uma piada irônica e de extremo humor-negro pra eu rir. Que sempre irão sugerir os filmes, os cafés, os livros, os hambúrgueres e os sorvetes certos. Que me darão todos os espaços necessários pra eu pular de um ciclo pra outro, e esperarão os recomeços pra preencher meus espaços vazios. Que me provarão que sim, ainda vale a pena viver.

E é pra vocês, que sempre fizeram parte dos meus recomeços, que eu ofereço esse texto.

Anuncio, oficialmente, que estou pronta pra recomeçar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Verão

A verdade é que eu tenho medo do verão. Não é questão de gostar ou não gostar. É o medo mesmo. O verão sempre traz coisas de volta. Traz cheiros, lugares, objetos. E aves. E pessoas.

E esse período me faz sair por aí, sem rumo, sem hora pra voltar. Apenas para poder sentir a brisa fresca penetrando minhas roupas e esfriando meu sangue. Apenas para ter, por algumas horas, a sensação de liberdade, sentindo o vento e a chuva entrando pelas janelas daqueles quartos escondidos no meio dessa multidão de quartos.

E são exatamente nessas fugas que eu me encontro. Encontro aquilo perdido dentro de mim mesma. Aquilo que aparece em anos bissextos, me dando o direito de viver um dia a mais. Some, fica anos escondido, para ser chamada de novo. Chamadas inesperadas em busca da montanha mais alta, com o vento mais forte, com a lembrança mais bela de seus olhos.

Naturalmente, o verão acabará. As folhas e o cheiro do outono voltarão e outras lembranças e outras pessoas também. As aves irão embora, levarão o calor e a busca do ar fresco para outros continentes.

Encontrarei alento em outros lugares, em outros objetos. Em outras aves. Em outras pessoas.

Contudo, intimamente, secretamente e amedontramente, aguardei outro verão. Se ele virá ou não, já não é mais importante. Esse ano, o calor não tomou apenas a minha pele. Cravou meu sangue.

E no sangue, a memória é eterna.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Esperar?

Um dos grandes males da minha vida foi esperar. Ou saber esperar. Sou humana (fazer o quê?) e por natureza, sou um ser que vive na expectativa. Que nunca se conforma e sempre acha que precisa de algo novo e diferente pra continuar com a motivação de viver num lugar tão estranho que é esse mundo. Noventa por cento das expectativas são materiais. Infelizmente ainda são.

Com a maturidade, percebi que não adianta tentar inibir as expectativas. E sim, saber esperar saudavelmente. Saber que ‘aquilo’ virá se for necessário mesmo, se for pro seu bem. Saber esperar sem desfocalizar os compromissos e as responsabilidades.

Sem alterar o metabolismo e relógio biológico. Sem esquecer daquilo que já se tem e está bom. Sem esquecer de agradecer aquilo que ainda não se tem. Sem esquecer de ‘tocar o foda-se’ quando realmente necessário.

Autocontrole, fé e fluoxetina. Elementos necessários para manter meu estômago longe das eventuais crises de gastrite. Leitura para me fazer esquecer um pouco de mim mesma, terapia essencial para uma mulher egocêntrica e egoísta. Mimada e imediatista. E o pior, geminiana.

Sofrimento. Ah, sim. Esse é o que vem para ensinar as melhores lições. E esperar a dor passar tem sido fator básico para meu amadurecimento.

Não espere por milagres. Nem acredite neles.

Não espere nada de ninguém. E não ache o tempo todo que as pessoas esperam algo de você.

Espere que tudo se ajeita. E se não se ajeitar, espere. Cedo ou tarde, você entenderá por quê.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Vai ser assim.

Você vai me encontrar em algum lugar inusitado, daqueles em que nunca imaginaríamos conhecer alguém tão especial. Isso acontecerá num dia que eu estiver focada em alguma outra coisa que não seja ‘relacionamento’. Num dia em que eu não vou acordar me importanto com fato de ser solteira há tanto tempo. E o pior, o fato de ainda não saber o que é um relacionamento convencional. E morrer de vontade de experimentar.

Vamos nos olhar, vamos nos falar. Teremos coisas em comum, mas muitas coisas a aprender com o outro. Teremos uma canção, uma poesia, um filme, uma foto. Teremos uma rotina.

Você não será perfeito. Eu também não tentarei ser perfeita. Respeitarei meus sentimentos e te falarei exatamente aquilo que espero no momento.

Quero poder mostrar meu romantismo e tudo aquilo que tenho a oferecer a alguém que me aceite um pouco, que me deseje muito, que me enlouqueça de rir de vez em quando.

Teremos piadas internas, tiradas sarcásticas, caretas bobas de manhã. Você não se assustará com meus eventuais comentários e opiniões sobre certas peculiaridades humanas.

Planejaremos.

Aprenderemos a viver melhor, seremos disciplinados e calmos. Pensaremos antes de falar. Não, não seremos o casal do tipo perfeito, mas nos respeitaremos mutuamente.

Que acredite em algo. E principalmente que acredite em si mesmo.

Vai durar tempo necessário para que cumpramos o que tivermos que cumprir um com o outro. Que seja um mês ou uma vida. Ou duas.

Não te prometo a utopia da felicidade. Mas prometo dar-te amor, e te provar que vale a pena viver.

Ao meu lado, de novo, como sempre.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

2011, o ano que eu li

Escolhi esse ano para ler. Foi um ano que eu esperava ter há muito tempo. Desde os tempos dourados da faculdade de Letras. Uma pena que naquele tempo eu lia mais por obrigação do que por prazer. Ironias da vida.

Decidi conhecer mais de perto algumas figuras femininas que sempre admirei. As biografias de Madonna (Lucy O’Brien), Oprah Winfrey (Kitty Kelley), Clarice Lispector (Benjamin Moser), Emily Dickinson (Judith Farr) e Só Garotos (Patti Smith) me serviram de prato cheio pra manter minha postura ‘alternativa e indignada’. Todas elas são/eram. E todas mereceram uma biografia. Me deram ótimos argumentos pra continuar não querendo ser igual à maioria. Surpreendentemente, decidi ler sobre a vida de Steve Jobs (Walter Isaacson). Mais um filho-da-puta-gênio que eu vou agradecer o resto da minha vida. Juntamente com todas as mulheres que citei acima.

Todos sabem do meu interesse pelo universo beat. Kerouac me fez companhias por diversas manhãs e muitas noites silenciosas com as obras: Cidade Pequena Cidade Grande, On The Road, Viajante Solitário e Os Subterrâneos.

Também consegui dividir um pouco do porre, da sacanagem, grosseria e poesia de Chales Bukowski. Hollywood, Mulheres, Pulp e Crônicas De Um Amor Louco me deixaram bêbada. Ainda me curo da ressaca que é lê-lo.

Dentro da variedade literária da doutrina Espírita, esse ano escolhi Direito de ser feliz (Eliana Machado Coelho/Schellida), aprendi muito com Missionários da Luz e No mundo maior (André Luiz / Francisco Cândido Xavier) e me emocionei com Há dois mil anos (Emmanuel/Francisco Cândido Xavier).

Alguns livros me fizeram suspirar e chorar em público. As Ponte de Madison (Robert James Waller), O Mundo Pós-Aniversário (Lionel Shriver), Cartas à um Jovem Poeta (Rilke), Travessuras da Menina Má (Mario Vargas Llosa) e O Diário de Anne Frank, por exemplo. Alguns livros me deram cólicas. Antes Que Anoiteça (Reinaldo Arenas), Angústia (Graciliano Ramos), Perfume (Patrick Suskind) e Porque Não Sou Cristão (Bertrand Russel), por exemplo.

Com A Intimação (John Grisham), eu perdi meu tempo.

De Clarice Lispector absorvi e rabisquei milhares de frases de efeito para eventuais necessidades: Um Aprendizado ou o Livro dos Prazeres, A Paixão Segudo G.H. e Perto do Coração Selvagem.

Com Clarissa (Érico Veríssimo), eu sorri. E pisquei meus olhos muitas vezes durante a leitura. Eu pisco muito os olhos quando estou alegre.

Ainda há um mês pela frente. Planejo encerrar o ano sincronizando a literatura com meu momento atual. Lerei Anais Nin.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Celeuma

Eu ainda desejo praticamente as mesmas coisas que desejava quando tinha 15 anos. Eu ainda rezo e peço pelo mesmo. Eu ainda não entendi que, se depois de todos esses anos eu ainda não fui atendida, é porque a resposta pode ser ‘não’. Eu insisto. Eu xingo, eu choro, rogo, imploro. Estupidamente, eu ainda acredito.

E é essa crença que me faz perceber que de vez em quando o universo finge que me escuta. E me dá coisas que peço, claro que fracionadas em 100. É como se eu pedisse o mundo, e ganhasse um punhado de terra. Tudo bem. A terra faz parte do mundo. Eu ganhei um pedaço dele.

E é pra isso que estou olhando agora. Que adormece silenciosamente ao meu lado. Que respira tão profundamente que parece estar roubando todo o ar desse quarto semi-iluminado. Que me deixa sem ar. Que me fez lembrar de mim. Que me fez me olhar no espelho por inteiro.

Mas um punhado de terra é muito pouco pra quem deseja o mundo.

Estou satisfeita por ter me sentido feliz. Estou triste porque, de novo, não sei o que fazer depois da felicidade. Me sinto mais confortável assim. Sem saber o que fazer depois que se é feliz.