(Era pra ser apenas uma conversa de elevador, sem intenção de nada)
- ‘Feliz dia dos pais’.
- Não sou pai, nem ao menos sou casado.
- Quer um chiclete?
- Mas é o último.
- E qual o problema?
- Se eu chupar, eu não caso.
(Droga,ele falou as duas palavras mágicas, numa mesma frase. Chupar e casar.)
- Não sou supersticiosa.
- Você acha que nos conhecemos por acaso?
(Por favor, páre de me olhar assim, páre de me tocar todas as vezes que passa por mim.)
- Acho que vai chover.
- É, tá precisando. Essa seca tá me matando.
- Tá na seca, é?
- Sim, bastante.
- Quer tomar uma chuva comigo qualquer dia desses?
(Isso é um convite pra um encontro pseudo-romantico-sexual?)
- Só se você me prometer que continuaremos amigos. E que será uma chuva passageira, de verão. E que nunca, em hipótese alguma, alguém fique sabendo disso.
- Fechado.
(Preciso marcar depiladora e pedicure)
- Hoje faz um mês que nos conhecemos.
- O tempo passou rápido.
(Mais uma semana de salão de beleza e minha paciência se esgota)
- Vamos dar uma volta qualquer dia desses?
- Claro que sim, mas essa semana não dá, estou atarefado.
(Preciso desenvolver minha tolerância)
- Essa semana dá?
- Também não.
(Paciência + sabedoria = elevação do espírito)
- Preciso falar com você.
- Pode falar.
- É particular. Preciso te pedir algo.
(Eu preciso de um chiclete. Urgente.)
- Pode pedir.
(Um beijo)
- Me empresta uma grana?
(Filho da puta)
- Claro. Toma.
- Obrigado. Amanhã eu te devolvo.
- Ok, sem problemas.
(Até hoje, sem o beijo, sem o passeio e sem o dinheiro)
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Ainda somos os mesmos
E eu decidi tirar férias de você. Decidi que queria saber como era a vida sem você.
O prazo seria de um ano. Mas a primavera chegou e com ela veio o cheiro do vento, do mato, da falta de chuva, dos almoços ensolarados e fins de tarde gelados. Veio o cheiro do seu hálito. Veio o nosso cheiro juntos.
A reaproximação foi fácil, simples e assertiva. Eu disse oi e você abriu seu sorriso enigmático e me aceitou de volta com apenas um olhar e um aceno de cabeça. A primeira frase da sua boca foi aquela que esperei ouvir por, talvez, toda a minha vida: Eu entendi seu silêncio e te respeitei.
A verdade é que nada mudou tanto assim. Melhorei minha aparência e meu coração. Tive mais tempo pra outros amigos, escrevi mais, li mais, vi menos filmes, falei menos sobre filosofia e critiquei menos a burguesia. Talvez até tenha me inserido nela. Talvez.
Ainda tomo chá todos os dias, durmo com pijama do Piu-piu, minha calcinha favorita ainda é aquela preta sem costura, ainda uso o mesmo All Star roxo e passo os 289 cremes antes de dormir.
Continuo comendo o Cheddar Mc Melt e tomando Coca Zero achando que não vou engordar. Continuo rejeitando peixe cru e cebola na salada. Ainda insisto no celibato experimental. Ainda insisto em me apaixonar uma vez por mês. Ainda sonho com adoção.
E fico feliz de saber que dessa vez quem mudou foi você. É bom te ver mais sério, com mais bagagem, com experiências de quem rodou o país inteiro e viu coisas que jamais terei oportunidade de ver.
Fico grata por você ainda estar do meu lado e me ensinar tanto. Me fazer rir tanto. E não me fazer chorar.
Por você ainda me amar, me respeitar, me admirar e confiar em mim.
Vejamos agora o que iremos aprender um com o outro.
Até que o inverno chegue novamente e nos peça por mais dias de silêncio e perdão.
O prazo seria de um ano. Mas a primavera chegou e com ela veio o cheiro do vento, do mato, da falta de chuva, dos almoços ensolarados e fins de tarde gelados. Veio o cheiro do seu hálito. Veio o nosso cheiro juntos.
A reaproximação foi fácil, simples e assertiva. Eu disse oi e você abriu seu sorriso enigmático e me aceitou de volta com apenas um olhar e um aceno de cabeça. A primeira frase da sua boca foi aquela que esperei ouvir por, talvez, toda a minha vida: Eu entendi seu silêncio e te respeitei.
A verdade é que nada mudou tanto assim. Melhorei minha aparência e meu coração. Tive mais tempo pra outros amigos, escrevi mais, li mais, vi menos filmes, falei menos sobre filosofia e critiquei menos a burguesia. Talvez até tenha me inserido nela. Talvez.
Ainda tomo chá todos os dias, durmo com pijama do Piu-piu, minha calcinha favorita ainda é aquela preta sem costura, ainda uso o mesmo All Star roxo e passo os 289 cremes antes de dormir.
Continuo comendo o Cheddar Mc Melt e tomando Coca Zero achando que não vou engordar. Continuo rejeitando peixe cru e cebola na salada. Ainda insisto no celibato experimental. Ainda insisto em me apaixonar uma vez por mês. Ainda sonho com adoção.
E fico feliz de saber que dessa vez quem mudou foi você. É bom te ver mais sério, com mais bagagem, com experiências de quem rodou o país inteiro e viu coisas que jamais terei oportunidade de ver.
Fico grata por você ainda estar do meu lado e me ensinar tanto. Me fazer rir tanto. E não me fazer chorar.
Por você ainda me amar, me respeitar, me admirar e confiar em mim.
Vejamos agora o que iremos aprender um com o outro.
Até que o inverno chegue novamente e nos peça por mais dias de silêncio e perdão.
sábado, 23 de outubro de 2010
Eu e os homens
Nasci no meio de homens. Tenho dois irmãos e cresci no mesmo quintal que mais dois primos. Todos homens. Eles foram meus primeiros amigos, parceiros de traquinices e brincadeiras. Aí eu cresci. E de repente, as mulheres eram estranhas pra mim. Claro, por uma questão de organização e aceitação social, fiz amizade com elas e passei a conhecer um pouco mais das suas obscuras e dramáticas realidades. Tudo bem, nada mal. Tínhamos muitas coisas em comum. Ah, sim, eu também era uma delas.
Meu pai e meu irmão mais velho sempre foram fãs de Madonna. Eu tinha 10 anos quando meu irmão ganhou o disco ‘True Blue’, e o ouvia todos os dias. Aos 15, eles assistiam muitas vezes seguidas o show ‘Blond Ambition Tour’. E eu ouvi muitos comentários do tipo: ‘Eu admiro mulheres como a Madonna’. Fudeu. Quis ser Madonna pro meu pai e meu irmão me admirarem. Fudeu mesmo. Assisti 1298 vezes ‘Truth or Dare’, e no mesmo ano eu arrumei meu primeiro grupo de amigos gays.
Amo rodinhas de amigos falando de futebol e bunda. Acho engraçadíssimo a forma que eles enxergam o mundo, e a forma prática de se resolver questões que nós mulheres levamos dias pra começar a pensar. Eles não precisam de chocolate, não tomam fluoxetina, fazem xixi em pé e em qualquer lugar, e abrem potes de azeitona como ninguém. Deve ser fácil ser homem.
Gosto muito de sexo com homens. Sou apaixonada pelo falo. Mas na minha opinião, acho que homens bissexuais fazem sexo melhor do que heterossexuais. Minhas amigas acham que é porque eu ainda não conheci um homem de verdade. Um que vai me tirar do sério e me deixar de quatro feito uma shitsu treinada e obediente. Talvez seja por isso que todas as vezes que copulei com um homem heterossexual sempre foi na mesma condição ‘somos amigos e estamos fazendo sexo, não espere nada de mim’.
Amei homens que me faziam competir com outros homens. Lembram da minha infância? Pois é. Não aprendi a competir com mulheres. Tenho medo. E claro, me sinto inferior a pelo menos 98% delas. Não deveria mesmo me sentir assim. Mas sou mulher, e sou complicada.
O que é realmente bom de estar no meio dos homens é que eles nunca tentam me descomplicar, me definir e me escutar. Porque a mulher sou eu, e eu faço tudo isso com eles.
Sim, sou mulher, egoísta, complicada, egocêntrica e com baixa auto-estima.
Mas acredito em Deus. E sei que, dentro de Seus planos eu sou assim porque preciso aprender alguma coisa com isso. Um dia eu descubro o quê.
E Deus é tão espertinho que colocou 33 homens juntos no Chile, e todos saíram se abraçando depois de 67 dias presos num buraco. Isso ratifica minha teoria doidinha.
Imagina se fossem 33 mulheres?
O fim poderia ter sido beeem diferente.
Meu pai e meu irmão mais velho sempre foram fãs de Madonna. Eu tinha 10 anos quando meu irmão ganhou o disco ‘True Blue’, e o ouvia todos os dias. Aos 15, eles assistiam muitas vezes seguidas o show ‘Blond Ambition Tour’. E eu ouvi muitos comentários do tipo: ‘Eu admiro mulheres como a Madonna’. Fudeu. Quis ser Madonna pro meu pai e meu irmão me admirarem. Fudeu mesmo. Assisti 1298 vezes ‘Truth or Dare’, e no mesmo ano eu arrumei meu primeiro grupo de amigos gays.
Amo rodinhas de amigos falando de futebol e bunda. Acho engraçadíssimo a forma que eles enxergam o mundo, e a forma prática de se resolver questões que nós mulheres levamos dias pra começar a pensar. Eles não precisam de chocolate, não tomam fluoxetina, fazem xixi em pé e em qualquer lugar, e abrem potes de azeitona como ninguém. Deve ser fácil ser homem.
Gosto muito de sexo com homens. Sou apaixonada pelo falo. Mas na minha opinião, acho que homens bissexuais fazem sexo melhor do que heterossexuais. Minhas amigas acham que é porque eu ainda não conheci um homem de verdade. Um que vai me tirar do sério e me deixar de quatro feito uma shitsu treinada e obediente. Talvez seja por isso que todas as vezes que copulei com um homem heterossexual sempre foi na mesma condição ‘somos amigos e estamos fazendo sexo, não espere nada de mim’.
Amei homens que me faziam competir com outros homens. Lembram da minha infância? Pois é. Não aprendi a competir com mulheres. Tenho medo. E claro, me sinto inferior a pelo menos 98% delas. Não deveria mesmo me sentir assim. Mas sou mulher, e sou complicada.
O que é realmente bom de estar no meio dos homens é que eles nunca tentam me descomplicar, me definir e me escutar. Porque a mulher sou eu, e eu faço tudo isso com eles.
Sim, sou mulher, egoísta, complicada, egocêntrica e com baixa auto-estima.
Mas acredito em Deus. E sei que, dentro de Seus planos eu sou assim porque preciso aprender alguma coisa com isso. Um dia eu descubro o quê.
E Deus é tão espertinho que colocou 33 homens juntos no Chile, e todos saíram se abraçando depois de 67 dias presos num buraco. Isso ratifica minha teoria doidinha.
Imagina se fossem 33 mulheres?
O fim poderia ter sido beeem diferente.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Ensaio de uma vida de merda

Eu tenho um blog. (Dãh)
Sou seguida no twitter.
Sou vista e opinada no facebook.
Inacreditavelmente ainda tenho um perfil no orkut.
Estou no linkedin.
Tenho dois MSNs.
Sou cliente prata do par perfeito.
Como sempre eu me pergunto: Pra quê? Será que precisa de tanta coisa assim só pra dizer que eu tenho uma vida de merda?
Sou pseudo-escritora. Devo ter mais textos que leitores hoje em dia. Não sei pra que ter tantas páginas com as minhas experiências e opiniões se a cada dia chego à conclusão de que minha vida é a coisa mais ordinária que eu conheço. A mais merda, a mais fétida.
É um agregado de memórias esfumaçadas na minha mente. Um passado distante, mas que ainda inspira textos e frases de até 140 caracteres.
Mas o presente é rotineiro. É igual. Sempre.
Nada a reclamar de verdade. Nenhum problema realmente sério. Família, dinheiro, amigos, vida social, trabalho, espiritualidade, amores, tudo bem, tudo estável.
Reclamo do calor. De fome, da chuva, de cansaço, do cheiro no ônibus, do último filme ruim do Shyamalan, de gente que pensa diferente de mim, de paqueras mal-sucedidas, e de falta de sexo. Nada que realmente importe de verdade. Futilidades de alguém de vida estável.
E onde então se encontra aquela mulher ‘doidona’, que tem frases de efeito, boca suja e sempre dá a entender que passou a noite numa suruba de 390 pessoas bezuntadas em azeite de oliva? Hein?
Pra que manter essa imagem? Na vida real eu sou apenas aquela menina sozinha lendo um livro num canto escuro de uma cafeteria. Sou aquela que foge pro Ibirapuera no meio da tarde quando precisa ouvir o silêncio. Sou aquela que come chocolate escondida, achando que assim não engorda. Sou aquela que chora enquanto toma banho. Sou aquela que reza duas vezes por dia, e quando esquece tem medo de ser punida.
Caralho. Eu sou normal. Minha vida é normal.
E o que está fora do lugar então? Por que me sinto tão diferente?
É diferente por dentro.
É fácil ser diferente agindo de forma diferente, se penteando diferente, se vestindo diferente. É simples.
Difícil é ser diferente agindo como um normal, tendo uma vida regrada, um trabalho corporativo, e participar de uma comunidade religiosa.
É conseguir viver em sociedade, aceitar o mundo que vive, respeitar as vidas alheias, e mesmo assim ser diferente, pensar diferente, ter opiniões diferentes.
Minha vida é de merda, é sim. Como a de todo mundo.
Sempre lutei contra isso, nunca achei que teria uma.
Hoje eu gosto dessa merdinha que vivo. Dessa rotina cheia de planejamentos metódicos e assertivos. Desse dinheiro controlado, e horários marcados. Essa merda de rotina me faz bem.
Resignação.
Eu aceito minha vida de merda.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
A síndrome do banheiro público

Quem já teve dor de barriga dentro de um ônibus e desceu em qualquer ponto pra usar qualquer banheiro em qualquer boteco em quaisquer condições de limpeza, põe o dedo aqui.
É assim que eu defino a maioria das minhas participações sexuais na sociedade. O tal banheiro público.
Não de forma degradante ou de extrema baixa autoestima, mas de forma realista. Tão realista a ponto de poder falar abertamente sobre isso e saber que a solução já foi encontrada e executada.
Sempre me senti um ícone do mundo do ‘sexo sem compromisso mas com responsabilidade’. Hoje percebo que nada mais fui do que um refúgio. Um alívio. Taí a síndrome.
Certa vez, numa típica conversa pós-coito, meu parceiro me abraçava ternamente e dizia com o maior romantismo: ‘Me sinto tão bem quando venho aqui, não aguentava mais o stress do escritório. Me sinto aliviado.’ A minha resposta veio impulsivamente: ‘Me senti um sanitário de metrô agora.’ E ele, depois de uma crise de riso disse: ‘Faz sentido. Mas por que não um sanitário de shopping?’ ‘Oras, antes de decidir vir correndo pra cá, você estava mais no estado de quem tá na rua apressado tentando chegar ao trabalho e de repente tem uma diarréia, do que alguém que está fazendo compras num sábado à tarde.’ Depois da segunda crise de riso, minha reação foi óbvia. ‘Agora se limpe e vá embora correndo, porque você já conseguiu o que queria e precisa continuar sua vida.’ Foi o fim de nossa breve história que durou 3 encontros e um telefonema, momento em que enterrei a vontade de tê-lo como um namorado definitivamente.
A novela foi a seguinte: mesmo depois de ter mandado ele embora, uma semana depois me senti entediada e decidi ligar pra ele. Queria que viesse em casa pra me entreter. Ele disse em poucas palavras que não poderia mais vir à minha casa porque tinha encontrado o amor de sua vida e tinha decidido começar a namorar. Terminou com um mero: ‘Eu sou fiel, sabe?’
Foi o início da elaboração da minha teoria sobre essa síndrome. Eu era o banheiro público, ela era o banheiro de casa e ele era do tipo que o intestino travava quando estava numa viagem e só conseguia destravar quando voltasse.
Passei mais alguns anos me debatendo dentro desse sentimento, até que decidi aceitar a posição de ‘banheiro de balada’. Normalmente, aonde as melhores histórias acontecem, mas que no dia seguinte não passam de vagas lembranças e fofocas cheias de veneno.
Depois, encontrei alguém que seria capaz de morar dentro de um banheiro se fosse preciso, mas que só usaria o vaso sanitário do vizinho.
Passada essa fase, me tornei um banheiro entupido.
Daí, meu banheiro ficou interditado. Teve uma placa pendurada na porta dizendo: ‘Desculpe o transtorno. Estou em reforma pra melhor atendê-lo’ por muito, muito tempo.
Acabei de tirar a placa, e realmente espero em breve ser útil de novo. Mas o reabro reformado, limpo, redecorado e pronto pra alguém.
Não vou dizer que já sonho em ter alguém morando lá dentro, nem sei se a reforma está realmente acabada a ponto de servir de moradia. Mas quero alguém que prefira usá-lo, não por falta de opção, pressa ou desespero.
Simplesmente escolha.
sábado, 21 de agosto de 2010
Less is more.
Essa história toda de mais ou menos sempre me deixou encafifada. Aliás, várias coisas me fazem parar pra pensar. Até as mais idiotas, tipo aquele da Tostines (fresquinho, compra mais) lembram? Aí, vem sempre alguém que fala ‘menos é sempre mais’, com aquele ar de “quero chocar o grupo”. Quando ouço isso, sempre dou risada, faço aquela cara blazè e finjo que sou surda dos dois ouvidos e esqueci a prótese em casa. Mas a frase fica na minha cabeça, e vai me deixando nervosa (sou neurótica, e você já deveria saber disso antes de fazer essa cara de susto).
Em resumo, eu concordo que menos é sempre mais. Sou minimalista pra várias coisas. Em termos de cores de roupas e calorias no verso da embalagem, menos é sempre melhor. Aceito o nada em várias situações, mas na maioria das vezes, em gordura trans, sódio, álcool e sexo.
Agorinha mesmo, ao terminar meu ritual de hidratação, pensei comigo mesma: ‘um dia a menos’. Pronto, a palavrinha apareceu aí no meio. Menos. Parei pra pensar um pouco, e tudo começou a girar ao meu redor. O que seria mais deprimente do que pensar isso?
Se já não bastava tudo que rodeia minha vida emocional, eu ainda tenho que dormir com a sensação de que não fiz nada do que deveria. Um dia perdido.
Um dia a menos pra eu fazer alguma coisa útil, além de pensar em mim mesma e nos meus problemas tão pequenos e infantis. Um dia a menos pra eu parar definitivamente de fumar. Um dia a menos pra eu tomar coragem e começar a trabalhar com voluntariado. Um dia a menos pra eu viver um grande amor, ou pelo menos pra eu tentar me apaixonar de novo, sem aquele medo ridículo de ‘quem ama sofre, quem sofre se fode, quem se fode não ama’.
Acho que uma das minhas buscas sempre foi ‘o dia a mais’. No sentido bem quantitativo mesmo. Um dia a mais de experiência, de perdão, de caridade, de amor, de entrega. Um dia a mais que eu ganhei nessa encarnação porque eu mereci ganhar esse dia. Um dia a mais ao lado dos meus pais, dos meus irmãos e amigos. Um dia a mais de leitura, de bons pensamentos, de boas tentativas.
E na questão de conhecimento? Você arriscaria um alternativa?
Menos conhecimento, menos sofrimento. Mais conhecimento, mais sofrimento. Menos conhecimento, mais sofrimento. Mais conhecimento, menos sofrimento.
Eu escolhi conhecer mais. Nem que para isso eu tenha que sofrer mais.
Porém, se amanhã você me encontrar na rua e perguntar como estou, não se assuste se eu responder com uma boca torta: ‘eu tô bem mais ou menos’.
Essa história toda de mais ou menos sempre me deixou encafifada. Aliás, várias coisas me fazem parar pra pensar. Até as mais idiotas, tipo aquele da Tostines (fresquinho, compra mais) lembram? Aí, vem sempre alguém que fala ‘menos é sempre mais’, com aquele ar de “quero chocar o grupo”. Quando ouço isso, sempre dou risada, faço aquela cara blazè e finjo que sou surda dos dois ouvidos e esqueci a prótese em casa. Mas a frase fica na minha cabeça, e vai me deixando nervosa (sou neurótica, e você já deveria saber disso antes de fazer essa cara de susto).
Em resumo, eu concordo que menos é sempre mais. Sou minimalista pra várias coisas. Em termos de cores de roupas e calorias no verso da embalagem, menos é sempre melhor. Aceito o nada em várias situações, mas na maioria das vezes, em gordura trans, sódio, álcool e sexo.
Agorinha mesmo, ao terminar meu ritual de hidratação, pensei comigo mesma: ‘um dia a menos’. Pronto, a palavrinha apareceu aí no meio. Menos. Parei pra pensar um pouco, e tudo começou a girar ao meu redor. O que seria mais deprimente do que pensar isso?
Se já não bastava tudo que rodeia minha vida emocional, eu ainda tenho que dormir com a sensação de que não fiz nada do que deveria. Um dia perdido.
Um dia a menos pra eu fazer alguma coisa útil, além de pensar em mim mesma e nos meus problemas tão pequenos e infantis. Um dia a menos pra eu parar definitivamente de fumar. Um dia a menos pra eu tomar coragem e começar a trabalhar com voluntariado. Um dia a menos pra eu viver um grande amor, ou pelo menos pra eu tentar me apaixonar de novo, sem aquele medo ridículo de ‘quem ama sofre, quem sofre se fode, quem se fode não ama’.
Acho que uma das minhas buscas sempre foi ‘o dia a mais’. No sentido bem quantitativo mesmo. Um dia a mais de experiência, de perdão, de caridade, de amor, de entrega. Um dia a mais que eu ganhei nessa encarnação porque eu mereci ganhar esse dia. Um dia a mais ao lado dos meus pais, dos meus irmãos e amigos. Um dia a mais de leitura, de bons pensamentos, de boas tentativas.
E na questão de conhecimento? Você arriscaria um alternativa?
Menos conhecimento, menos sofrimento. Mais conhecimento, mais sofrimento. Menos conhecimento, mais sofrimento. Mais conhecimento, menos sofrimento.
Eu escolhi conhecer mais. Nem que para isso eu tenha que sofrer mais.
Porém, se amanhã você me encontrar na rua e perguntar como estou, não se assuste se eu responder com uma boca torta: ‘eu tô bem mais ou menos’.
sábado, 7 de agosto de 2010
Literaturizando
Se você fosse um livro, que livro seria?
Eu sei que nunca deveríamos responder uma pergunta com outra pergunta, Chavez já me ensinou. Mas uma pergunta dessas, assim, do nada e dentro do ônibus? À essa hora? Numa segunda-feira? Quanta coisa passando pela minha cabeça, e você olhando pra mim com esses olhos inchados de início de semana. Eu pensando, e você me olhando. O melhor que consegui fazer foi, claro, outra pergunta: Pode ser uma cena? E você me olha de novo, dessa vez já desperto, e me diz entediadamente: Sim, mas você ainda tem que me responder a outra pergunta.
Eu sou o Joey do seriado Friends, guardando Little Women no congelador, porque está muito triste com os acontecimentos do livro.
Mais alguns minutos de silêncio e eu continuo pensando. Você tenta, como sempre, preencher os nadas entre a gente e começa um texto engraçado: Olha, desde que começamos a pegar esse mesmo ônibus, já vi você lendo uns vinte livros diferente. Já me assustei bastante com as suas escolhas. Lembro que o primeiro livro que vi nas suas mãos foi Trópico de Câncer, do Henry Miller. Fiquei impressionado, pois você lia como se estivesse dentro da história. Naquela época você não sabia que eu existia. (E na minha cabeça, passava frases do tipo: bobinho, eu já tinha até prestado atenção nas suas axilas!) Depois disso, não me lembro da ordem, mas começou a aparecer Milan Kundera, epopéias de médicos medievais, Kerouac, Saramago, Bukowski, entre outros. Realmente acho que não será dificil escolher um livro que mais se parece com você.
Eu quebro seu texto com mais uma pergunta: Quais foram os sustos que você levou? Ah, John Grisham, porque é muito diferente do que você sempre leu, e de uns tempos pra cá, andam aparecendo uns livros Espíritas. Me assustei porque não imaginava que você tinha uma religião. Sempre imaginei que quem lêsse esses escritores malditos dificilmente acreditava em Deus. Mas o que me deu coragem pra iniciarmos uma conversa foi ter visto você lendo um livro sobre a Ferrari. Aí eu pensei comigo mesmo: Não é possível. Isso não é possível. Eu começo a rir com tantas revelações, e você, como sempre, não entende porque dou risada. Enfim, digo: Diante das suas constatações, uma pessoa que lê tanta coisa diferente nunca conseguiria responder a sua pergunta. Eu estava pensando em responder algo bem utópico, tipo, ‘eu sou a biblia’. Mas seria pretensioso demais. E nesse momento você começa a falar mais rápido, pois a sua parada está próxima. Você vai me deixar esperando uma semana pra saber a resposta? Eu concordo com um sorriso, silenciosamente. Você fica com um olhar irritado, e diz, como todas as segundas: Então, uma boa semana pra você. Algum filme pra me recomendar? Eu te recomendo ‘Um Homem Sério’ (Coen Brothers) e você diz que já viu. Então eu digo que não tenho mais nenhum pra te indicar e você já está parado nas escadas, esperando a porta abrir. Você me dá um tchau, e sai andando sem olhar pra trás.
O dia já está quase amanhecendo e eu aproveito pra continuar lendo. Abro ‘Comer, Rezar e Amar’ e a primeira frase que aparece é ‘Não toque em nada que não seja você mesmo’. Agradeço Elizabeth Gilbert, agradeço o universo pelo nosso diálogo, guardo o livro na bolsa e fecho os olhos.
Finalmente, silêncio.
Eu sei que nunca deveríamos responder uma pergunta com outra pergunta, Chavez já me ensinou. Mas uma pergunta dessas, assim, do nada e dentro do ônibus? À essa hora? Numa segunda-feira? Quanta coisa passando pela minha cabeça, e você olhando pra mim com esses olhos inchados de início de semana. Eu pensando, e você me olhando. O melhor que consegui fazer foi, claro, outra pergunta: Pode ser uma cena? E você me olha de novo, dessa vez já desperto, e me diz entediadamente: Sim, mas você ainda tem que me responder a outra pergunta.
Eu sou o Joey do seriado Friends, guardando Little Women no congelador, porque está muito triste com os acontecimentos do livro.
Mais alguns minutos de silêncio e eu continuo pensando. Você tenta, como sempre, preencher os nadas entre a gente e começa um texto engraçado: Olha, desde que começamos a pegar esse mesmo ônibus, já vi você lendo uns vinte livros diferente. Já me assustei bastante com as suas escolhas. Lembro que o primeiro livro que vi nas suas mãos foi Trópico de Câncer, do Henry Miller. Fiquei impressionado, pois você lia como se estivesse dentro da história. Naquela época você não sabia que eu existia. (E na minha cabeça, passava frases do tipo: bobinho, eu já tinha até prestado atenção nas suas axilas!) Depois disso, não me lembro da ordem, mas começou a aparecer Milan Kundera, epopéias de médicos medievais, Kerouac, Saramago, Bukowski, entre outros. Realmente acho que não será dificil escolher um livro que mais se parece com você.
Eu quebro seu texto com mais uma pergunta: Quais foram os sustos que você levou? Ah, John Grisham, porque é muito diferente do que você sempre leu, e de uns tempos pra cá, andam aparecendo uns livros Espíritas. Me assustei porque não imaginava que você tinha uma religião. Sempre imaginei que quem lêsse esses escritores malditos dificilmente acreditava em Deus. Mas o que me deu coragem pra iniciarmos uma conversa foi ter visto você lendo um livro sobre a Ferrari. Aí eu pensei comigo mesmo: Não é possível. Isso não é possível. Eu começo a rir com tantas revelações, e você, como sempre, não entende porque dou risada. Enfim, digo: Diante das suas constatações, uma pessoa que lê tanta coisa diferente nunca conseguiria responder a sua pergunta. Eu estava pensando em responder algo bem utópico, tipo, ‘eu sou a biblia’. Mas seria pretensioso demais. E nesse momento você começa a falar mais rápido, pois a sua parada está próxima. Você vai me deixar esperando uma semana pra saber a resposta? Eu concordo com um sorriso, silenciosamente. Você fica com um olhar irritado, e diz, como todas as segundas: Então, uma boa semana pra você. Algum filme pra me recomendar? Eu te recomendo ‘Um Homem Sério’ (Coen Brothers) e você diz que já viu. Então eu digo que não tenho mais nenhum pra te indicar e você já está parado nas escadas, esperando a porta abrir. Você me dá um tchau, e sai andando sem olhar pra trás.
O dia já está quase amanhecendo e eu aproveito pra continuar lendo. Abro ‘Comer, Rezar e Amar’ e a primeira frase que aparece é ‘Não toque em nada que não seja você mesmo’. Agradeço Elizabeth Gilbert, agradeço o universo pelo nosso diálogo, guardo o livro na bolsa e fecho os olhos.
Finalmente, silêncio.
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